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Esta é uma seleção de críticas comuns feitas ao altruísmo eficaz na mídia e em discussões bem como algumas possíveis respostas dadas pelos membros e organizações do movimento. Note que o movimento é diverso e não tem um porta-voz, de maneira que muitos membros podem discordar ou dar respostas diferentes das mostradas aqui.

Sobre a edição:

  • Sempre que possível cite a fonte dos dados ou argumentos.
  • Referências adicionais são bem-vindas.

Críticas e objeções aos princípios do Altruísmo Eficaz

  • Não há causa objetivamente melhor que outra, a priorização de causas é uma preferência subjetiva.
A escolha de causas realmente envolve alguns valores subjetivos, mas há também fatores objetivos importantes como o impacto das intervenções, isto pode ser avaliado analisando dados como o número de pessoas beneficiadas, a melhora de parâmetros de qualidade de vida, expectativa de vida, mortalidade infantil, anos de escolaridade, etc. Participantes do movimento frequentemente discordam e escolhem causas diferentes para apoiar e doar, mas buscam contribuir para as melhores intervenções dentro das causas que consideram mais importantes.
  • A ideia de fazer o bem máximo implica em adotar uma vida de custo mínimo, sem luxos, ao mesmo tempo em que se trabalha muito para doar a caridades eficazes. É um sacrifício pessoal descomunal. [1]
É verdade que alguém que consiga levar uma vida assim sustentavelmente poderia gerar um grande impacto no mundo. Mas mais importante do que fazer o bem máximo é fazer melhor o bem. Os membros do movimento tem diferentes graus de comprometimento de acordo com suas condições e disposições individuais, mas querem fazer o melhor dentro do que se propõem, e podem experimentar aumentar ou diminuir suas doações de acordo com sua disposição pessoal e condições.
  • O Altruísmo Eficaz usa princípios utilitaristas de bem-estar para guiar suas prioridades, dando pouca importância a outros valores como justiça social. [2]
O movimento de altruísmo eficaz se originou a partir de proponentes da ética utilitarista (especialmente Peter Singer), e suas ideias de quantificar e maximizar impacto estão bastante alinhadas a este tipo de ética. No entanto existe diversidade de opiniões no movimento a respeito de diferentes causas, valores e princípios morais, e muitos consideram questões de justiça social importantes. Se atualmente não recebem a mesma atenção é porque são avaliadas como menos prioritárias ou passíveis de intervenção eficaz do que outras causas como a pobreza extrema (e outras como a animal, ou a de riscos catastróficos). Altruístas eficazes não precisam ser utilitaristas, mas em geral concordam com eles que dentre duas opções, se não houver outras diferenças relevantes, deve-se fazer a que produz o maior bem [3].

Críticas e objeções ao movimento de Altruísmo Eficaz

  • O Altruísmo Eficaz é um movimento de pessoas relativamente ricas que não inclui as pessoas a quem se compromete a ajudar [4]
Do seu início até o presente o movimento de AE tem se voltado principalmente a segmentos de maior renda que podem dispor de uma margem para doação, ou estudantes que tem interesse em doar no futuro, e muito menos às pessoas que tem menor renda, ou às na extrema pobreza que querem ser eficazes em ajudar a si e às demais ao seu redor. Isto se deve mais às origens e segmentos iniciais do movimento do que a seus princípios, e deve mudar conforme ele se expanda e se desenvolva, possivelmente nas direções de maior solidariedade política, e na incorporação de mais pautas políticas e apoio a movimentos sociais [4]. Particularmente a expansão do movimento na América Latina, África, Ásia e Oceania pode trazer novas abordagens, especialmente aos que atuam mais diretamente em causas sociais ou lutam contra a pobreza em sua vida diária.

Críticas e objeções à doação

  • Não existe um código universal do que é certo e errado. Temos que aceitar que todos tem visões diferentes sobre doação e todos tem o direito de seguir suas crenças.
Existem muitas visões sobre doação e sobre o dever moral de ajudar outros indivíduos. Altruístas eficazes acreditam que há bons motivos para se acreditar que doações podem fazer muita diferença, e se dispõem a usar uma parte de seus recursos para ajudar outros indivíduos. Alguns filósofos como Peter Singer e Peter Unger propuseram argumentos em favor de ajudar outras pessoas, como o da menina no lago. Se você acha que devemos ajudar alguém quando isto for fazer muita diferença para a pessoa e isto tiver um custo pequeno para você, você provavelmente concorda que doar para organizações eficazes é uma boa forma de ajudar pessoas.
  • Não doo porque não confio nas ONGs, nem nas avaliadoras, nem nos dados oferecidos por ambas.
Embora existam muitas organizações fraudulentas e ineficientes, taxar categoricamente todas as milhões de organizações filantrópicas como desonestas ou incompetentes despreza muitas iniciativas eficazes fazendo diferença no mundo. Tanto as organizações recomendadas como as avaliadoras de caridade tem uma preocupação forte em ser transparentes e justificar sua doação, afinal dependem da sua credibilidade para serem eficazes em sua missão. Pode ser possível obter mais informações contatando-as diretamente, ou mesmo visitando-as ou colaborando com elas.
  • Não doo porque prefiro fazer ações diretas como doar sangue e distribuir alimentos.
Agir diretamente em uma causa geralmente não impede uma pessoa de doar, podem se complementar. Conhecendo mais diretamente uma causa você será mais capaz de avaliar como o impacto dela se compara ao impacto de organizações recomendadas, e onde seu dinheiro fará o maior bem.
  • A caridade começa em casa. Não faz sentido doar para a África ou para a Ásia quando temos tantas pessoas (e animais) sofrendo dos mesmos problemas no Brasil.
De fato, apesar das melhoras sociais o Brasil ainda tem muitas pessoas vivendo em condições de extrema pobreza. Há no entanto dois motivos pelos quais se acredita valer a pena doar para intervenções no exterior. O primeiro é que a diferença de valor das moedas favorece muito países pobres. Mesmo com o Real estando desvalorizado, ele ainda vale mais do que muitas outras moedas, podendo comprar muito mais em países pobres. O segundo, que esperamos poder resolver num futuro próximo, é que ainda não temos avaliações rigorosas de muitas organizações atuando no Brasil. Então mesmo havendo problemas possivelmente tão graves, não sabemos se há organizações aqui que sejam comparativamente tão eficazes em resolvê-los.

Críticas e objeções às intervenções em pobreza extrema

  • Ajudar pessoas em pobreza extrema aumenta a sobrevida e natalidade das populações pobres, aumentando a pobreza extrema.
A diminuição da mortalidade infantil, o aumento do nível educacional, o acesso a informação sobre planejamento familiar e o acesso a anticoncepcionais são os fatores mais relacionados à estabilização do crescimento populacional. O aumento de oportunidades de trabalho e educação também diminui a necessidade de ter mais filhos para o sustento da família [5].
  • A pobreza é um problema gigante e sistêmico, que não vai ser resolvida com doações. Doações só servem para pessoas se sentirem bem e promoverem sua imagem. [6]
Isto muito provavelmente é parcialmente verdade. Embora a pobreza seja um problema finito e seja até possível quantificar quanto dinheiro seria necessário para resolvê-la (e é menos do que o gasto em muitas outras coisas menos importantes), ela é um problema sistêmico bastante complexo que provavelmente não será resolvido apenas com doações. Entretanto, intervenções de assistência não apenas ajudam comunidades locais (ajudando a resolver focos de pobreza), como possibilitam que tenham maiores condições de ajudar a si mesmas (por exemplo não sofrendo de malária, verminoses e desnutrição). Certamente outras formas de mudança são também necessárias, como mudanças institucionais, políticas e culturais, e são alvo de pesquisa.
  • Ações assistencialistas não atuam na causa dos problemas, e sabotam a verdadeira mudança política, amenizando os males do atual sistema socioeconômico em vez de promover a mudança do próprio sistema [7].
Intervenções de assistência podem de fato amenizar problemas sociais que levariam a uma reação social ou política. Entretanto mesmo para lutar contra problemas sociais as pessoas precisam de recursos mínimos. As intervenções atualmente priorizadas para combate a pobreza são muito básicas e tratam de prevenir ou tratar doenças como malária e verminoses ou transferir dinheiro para comunidades em extrema pobreza. Parece improvável que estas comunidades estejam sendo prejudicadas em seu empoderamento pra lutar por uma situação melhor, ou que o efeito total seja negativo [8]. Há também a consideração que as intervenções maiores e de longo prazo atualmente têm evidências muito mais fracas de efetividade (veja a resposta da GiveWell sobre a questão)
  • Organizações de assistência mantêm e se utilizam das estruturas e mecanismos que geram e exploram a pobreza. Somente uma revolução sistêmica profunda pode melhorar o mundo. [9]
Há realmente diversos problemas sociais não podem ser definitivamente resolvidos por intervenções pontuais, requerendo mudanças estruturais da política e na economia. Muitos membros do movimento se interessam e apoiam mudanças sistêmicas, e pesquisam quais as maneiras mais eficazes de transformar a sociedade. O movimento de Altruísmo Eficaz não se opõe a este tipo de mudança, apenas se concentra naquilo que atualmente temos mais evidências de eficácia. Embora o movimento defenda que devemos doar uma porção maior de nossa renda para organizações altamente eficazes, ele também está aberto para a discussão de outras ideias sobre quais as melhores vias para combater a pobreza. A Oxfam por exemplo advoga ajuda no desenvolvimento, esforços para o fortalecimento das instituições e reformas por uma ordem econômica global mais justa.
Em seu livro ‘Quanto custa salvar uma vida’, o filósofo Peter Singer recomenda que se após investigar as causas da pobreza global e refletir sobre quais abordagens tem maior chance de reduzi-la você realmente acreditar que uma mudança mais revolucionária é necessária então faz sentido dedicar seu tempo energia e dinheiro em organizações que promovem essa revolução no sistema econômico global. Mas em termos práticos, se houver pouca chance de alcançar essa revolução, é necessário buscar uma estratégia com melhores chances de realmente ajudar pessoas pobres.
  • O problema da pobreza extrema não é de falta de recursos ou conhecimento, é predominantemente de interesse político. [10]
É verdade que em muitos casos a ajuda externa ou mesmo as políticas internas são ineficazes devido a empecilhos políticos. No entanto não são todos os casos, muitos casos são meramente negligenciados ou resultado de falta de recursos. O combate à corrupção, o apoio a políticas públicas eficazes e a oposição a regimes políticos opressivos pode ser aliada à assistência imediata.
  • Organizações filantrópicas ocupam o papel do estado, desincentivando que ele seja melhorado e cobrado [11]
As organizações geralmente atuam em setores em que o estado é deficiente (seja por limitações de recursos ou por problemas institucionais), de maneira que aquelas necessidades provavelmente não seriam supridas de outra forma. Isto de fato pode diminuir o incentivo e a cobrança sobre o estado, tornando a comunidade efetivamente dependente de ajuda externa, e causar problemas políticos a longo prazo devido ao distanciamento político da população. Estes riscos políticos são reais mas podem ser atenuados por outros meios que não deixem de resolver as necessidades imediatas das comunidades.
  • Doar renda diretamente e incondicionalmente é o pior tipo de assistencialismo, torna as pessoas acomodadas e dependentes.
Assistência social, especialmente se não for bem planejada, pode causar desincentivos às pessoas melhorarem sua condição. Doar renda diretamente evita um grande custo gasto em burocracia e monitoramento (às vezes chegando a 40%), costuma ser feito por períodos curtos e em quantias moderadas, e é validado por diversos experimentos como uma forma eficaz de melhorar a condição das famílias mais pobres. Mesmo que uma porcentagem das pessoas gaste maneira ineficiente, o benefício médio é maior do que outros tipos de intervenções, como por exemplo microcrédito. Veja o FAQ da GiveDirectly para mais informações sobre como isto é feito.
  • Melhor do que doar renda seria investir em empresas socialmente e ecologicamente sustentáveis.
Embora empresas sociais pareçam uma ideia promissora, e trazerem vantagens para a economia e independência local, não há ainda evidências suficientes de qualidade demonstrando que investir nelas seja mais eficaz do que transferência de renda em aliviar a pobreza extrema.
  • As intervenções contra a pobreza são feitas de forma paternalista, não perguntamos a estas pessoas se e como querem ser ajudadas. É uma forma autoritária de poder sobre as pessoas sendo ajudadas.
As intervenções atualmente recomendadas se focam em prevenir doenças, divulgar conhecimentos básicos sobre higiene e saneamento, e no caso na GiveDirectly transferência incondicional de renda, o que significa que as pessoas tem a liberdade de decidir como gastar o dinheiro (assim como a de não aceitá-lo).

Críticas e objeções às intervenções de causa animal

Veja Críticas e objeções às intervenções de causa animal.

Críticas e objeções às organizações de prevenção de riscos catastróficos

  • Riscos catastróficos globais e existenciais são causas de interesse internacional e que exigem investimento massivo de recursos. Deveriam ser delegadas a governos e a ONU em vez de financiadas voluntariamente por indivíduos preocupados.
Riscos catastróficos e existenciais são uma área de pesquisa relativamente recente, embora alguns riscos específicos como guerra nuclear e mudança climática sejam pesquisados há muitos anos. Além de envolver questões altamente incertas (eventos físicos e sociais difíceis de estimar) o fato de serem eventos raros ou do futuro não imediato faz com que até hoje tenham recebido pouca atenção e investimento. O movimento de Altruísmo Eficaz tem incentivado iniciativas de pesquisa e também de elaboração de políticas de segurança para que possam influenciar orgãos governamentais e internacionais. Há ainda a preocupação de que governos não invistam em certos tipos de soluções devido a interesses conflitantes e problemas políticos ou internacionais, de maneira que restaria também a organizações não governamentais tratar de algumas questões.
  • O movimento de AE discute demais a questão do perigo de superinteligências artificiais. É um tema extremamente especulativo e que não deveria ter a mesma prioridade que outras causas como pobreza por exemplo. [12]
A questão da superinteligência artificial de fato envolve bastante especulação uma vez que ela ainda não existe e não sabemos ao certo que caminhos podem levar a ela e quais seriam suas consequências. Mas assim como outros tipos de riscos existenciais, ela pode oferecer um risco muito grande de prejudicar a humanidade, com os agravantes de que seu desenvolvimento tem sido muito rápido nos últimos anos (há uma corrida tecnológica ocorrendo entre empresas e países), de que uma vez desenvolvida sua evolução pode ser tornar muito mais rápida (devido a sua auto-evolução) e de que tem grande potencial militar e político. Portanto, mesmo sendo uma causa especulativa, ela tem recebido prioridade por sua urgência.

Críticas e objeções a atuação em outras causas

  • O altruísmo eficaz deveria se focar mais em desenvolvimento econômico [11]
Desenvolvimento econômico, especialmente de comunidades em pobreza extrema, é um dos focos do altruísmo eficaz, e de organizações recomendadas como a GiveDirectly, devido a seus efeitos sociais de escala e de longo prazo. Questões de saúde como combate a verminoses e a malária estão diretamente associadas a um ônus econômico grande devido aos custos, mortalidade e diminuição de produção causados por estas doenças. Outras formas de intervenção para desenvolvimento econômico que se mostrarem comparavelmente eficazes poderão eventualmente receber mais atenção e apoio do movimento.

Críticas e objeções às organizações de AE

Veja também

Links

Referências

  1. Paul Brest response
  2. Iason Gabriel response
  3. Peter Singer. The most good you can do (2015), p.79.
  4. 4,0 4,1 The Logic of effective altruism Jennifer Rubenstein response
  5. Common objections to giving - The Life You Can Save
  6. The Charitable-Industrial Complex. Peter Buffett. The New York Times.
  7. Slavoj Zizek: First as a tragedy, then as a farce - RSA animate
  8. Good Charity as Neither Tragedy nor Farce, Jeff Kauffman. June 8th, 2013
  9. Against Charity. Mathew Snow. Jacobin Magazine, August 2015.
  10. The Logic of effective altruism Angus Deaton response
  11. 11,0 11,1 The Logic of effective altruism Daron Acemoglu response
  12. I spent a weekend at Google talking with nerds about charity. I came away … worried. - Vox.com. Dylan Matthews, August 2015.